A Mulher Dos Olhos Azuis por Maxim Gorki - muestra HTML

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M·ximo Gorki

A MULHER DOS OLHOS AZUIS

*************

I

O comiss·rio adjunto da polÌcia, Zossime Guillovitch Podchiblo, pesado e melancÛlico ucraniano, estava sentado ‡ secret·ria, torcia os bigodes e girava os olhos irritados mirando o p·tio do comissariado pela janela. O gabinete era escuro, quente e silencioso; sÛ o pÍndulo de um grande relÛgio de parede contava os minutos com pancadas desagrad·veis e monÛtonas. No p·tio, ao contr·rio, tudo era sedutor, claro... TrÍs bÈtulas mergulhavam-no em sombra espessa e, num monte de feno recentemente trazido para ali para os cavalos dos bombeiros, dormia, estendido ‡ vontade, o sargento Konkharine, que acabara de ser rendido da guarda. Zossime observava-o e aquilo tornava-o furioso. O subordinado dorme e ele, o seu infeliz chefe, deve vegetar neste buraco e respirar as emanaÁıes h˙midas dos seus muros de pedra! Podchiblo imaginava o prazer que sentiria tambÈm, repousando ‡

sombra, deitado no feno perfumado, se tivesse tempo e se a sua posiÁ„o administrativa lho permitisse; depois espreguiÁou-se, bocejou e ficou ainda mais desesperado. Sentiu o incoercÌvel desejo de acordar Konkharine.

- Eh, tu!... Eh... Animal! Konkharine! - chamou ele com toda a forÁa.

A porta abriu-se e alguÈm entrou no gabinete. Podchiblo olhava pela janela e n„o se virou, n„o teve o mais pequeno desejo de saber quem entrava, quem estava por tr·s dele no limiar da porta e fazia gemer o soalho sob o seu peso.

Konkharine n„o deu pelo chamamento do seu superior. Com as m„os cruzadas debaixo da cabeÁa, a barba virada para o cÈu, dormia, e a Zossime pareceu-lhe ouvir o forte ressonar do seu subordinado, um ressonar irÛnico, saboroso, feito para excitar ainda mais o seu desejo de repouso e a raiva de n„o se poder entregar a ele. Podchiblo teve vontade de descer para dar um bom pontapÈ na barriga inchada do homem, de o apanhar pela barba e arrast·-lo para o sol.

- Eh... ainda na sorna! Est·s a ouvir-me?

-

Senhor comiss·rio, quem est· de serviÁo sou eu! Proferiu alguÈm atr·s dele numa voz obsequiosa e aÁucarada.

Podchiblo voltou-se, mediu com um olhar mau o sargento que remexia uns olhos grandes e embrutecidos e estava pronto a lanÁar-se instantaneamente aonde o mandassem.

-

Chamei-te?

-

N„o, senhor comiss·rio.

-

Fiz-te alguma pergunta? - disse Podchiblo aumentando a voz e agitando-se ligeiramente na cadeira.

-

N„o, senhor comiss·rio.

-

Ent„o, vai para o Diabo antes que te atire com qualquer coisa ‡s ventas!

E ele comeÁava j· a remexer febrilmente na mesa com a m„o esquerda para encontrar um projÈctil qualquer enquanto a direita se agarrava ‡ cadeira; mas o sub-oficial, lesto e r·pido, passou para o outro lado da porta e desapareceu. Este desaparecimento parecia insuficientemente respeitoso ao comiss·rio auxiliar da polÌcia; e veio-lhe a vontade de descarregar de qualquer forma toda a cÛlera que sentia subir em si contrastando com o ar morno da sala, com o serviÁo, com Konkharine adormecido, com a prÛxima temporada da feira e com outras maÁadas que, n„o se sabe porquÍ, vinham naquele dia apresentar-se espontaneamente ao seu espÌrito, contra a sua vontade.

-

Eh l·! Vem c·... - gritou na direcÁ„o da porta.

O sargento de serviÁo entrou e abrigou-se sob a soleira; a sua cara exprimia horror e expectativa.

-

Cara de parvo - insultou-o Podchiblo com um ar carrancudo. - Vai ao p·tio, acorda Konkharine e diz-lhe, a esse burro, que n„o torne a ressonar ali. Um esc‚ndalo!... Vai...

depressa...

-

¿s suas ordens! E, senhor comiss·rio, est· ali uma senhora que o queria ver...

- Quem?

-

Uma senhora...

-

Como?

-

Uma grande...

-

Idiota! Que È que ela quer?

- VÍ-lo...

-

Pergunta-lhe para quÍ... anda!

- Perguntei-lhe... n„o me respondeu... ´Quero ver o senhor comiss·rioª disse ela.

- Ah, cambada!... Dize-lhe que entre!... … nova?

-

Sim, senhor comiss·rio.

-

Bom, que entre!... Mexe-te! - ordenou Podchiblo com uma voz j· mais suave; ajeitou o fato e fez barulho com os papÈis na mesa dando ‡ sua fisionomia aborrecida o aspecto vigoroso que convÈm ‡ autoridade administrativa.

Atr·s dele ouviu-se um roÁar de vestido.

-

Que deseja? - perguntou Podchiblo colocado a trÍs quartos depois de ter medido a visitante com um ar crÌtico. Esta inclinou-se e aproximou-se lentamente da mesa, deitando um olhar encantador e furtivo ao polÌcia com os seus olhos azuis e graves. Estava vestida simples e pobremente, como as mulheres da pequena burguesia: com um lenÁo na cabeÁa, trazia um mantelete de pele cinzenta muito usada, cujos cantos ela amarfanhava entre os dedos morenos das suas m„os pequenas e bonitas. Era grande, forte, com o busto desenvolvido, e o rosto comprido e trigueiro; ela tinha em si qualquer coisa de particularmente severo e reflectido que n„o era feminino. Podia-se-lhe dar uns vinte sete anos. AvanÁava com um ar pensativo, com lentid„o, como se perguntasse a ela mesma: Ń„o deveria ir-me embora?ª

´Diabo! que granadeiro!ª pensou Podchiblo imediatamente apÛs a pergunta feita. Ísto vai dar uma queixaª...

-

Podia dizer-me..., - comeÁou ela com uma voz profunda de contralto, depois interrompeu-se hesitante, parando os seus olhos azuis na cara barbada do oficial da polÌcia.

-

Sente-se, se faz favor... Que deseja saber? - perguntou Podchiblo com um tom oficial, continuando a pensar para consigo: Úma boa mulher! Eh! Eh!ª

- … por causa dos livretes...

-

De habitaÁ„o?

-

N„o, n„o È desses...

-

Ent„o quais?

- Aqueles... aqueles com que... as mulheres v„o...

-

Que quer dizer?... De que mulheres se trata? - Perguntou Zossime levantando as sobrancelhas com um sorriso atrevido.

- Toda a espÈcie de mulheres que... saem ‡ noite...

-

Ai, ai, ai! As prostitutas? - fez Zossime, explicando-se amavelmente.

- Sim! … isso.

E, suspirando profundamente, ela sorriu por sua vez, mostrando-se mais ‡ vontade depois de ouvir a palavra.

- Ah! Ah! Ent„o? Sim, sim! E depois? - comeÁou a interrogar Zossime, pressentindo qualquer coisa interessante e complicada.

- E depois, foi por causa desses cartıes que eu c· vim... - pronunciou a mulher deixando-se cair para tr·s na sua cadeira, suspirando e sacudindo estranhamente a cabeÁa como se tivesse recebido uma pancada.

- Ent„o... vai abrir um pequeno estabelecimento ? … isso...

-

N„o, È para mim...

E a mulher baixou muito a cabeÁa.

-

Ah! Ah! E ent„o onde est· o seu antigo livrete?... - perguntou Podchiblo e, puxando a sua cadeira para mais perto da visitante, deitou-lhe a m„o ‡ cintura, atirando uma olhadela para a porta.

- Qual? Eu n„o tinha... - respondeu ela, olhando para ele, mas n„o fez um movimento para evitar a sua m„o.

- Ent„o vocÍ exercia secretamente a sua ind˙stria? - VocÍ n„o estava matriculada? Isso acontece. E vocÍ quer pÙr-se em dia? Est· bem... H· menos riscos - encorajou-a Zossime, afoitando-se nos seus gestos.

- Mas È a primeira vez que... - precisou ela, baixando os olhos com um ar incomodado.

- Mas como, a primeira vez? N„o compreendo - retorquiu Podchiblo, encolhendo os ombros.

- Eu quero sÛ... … a primeira vez. Eu vim para a feira - explicou a senhora com uma voz estrangulada, sem levantar os olhos.

- Ah, È isso! - Zossime retirou a m„o, afastou-se, e, um bocado embaraÁado, recostou-se na sua cadeira.

Ficaram um instante silenciosos.

- … ent„o isso!... Sim... vocÍ quer... Mas È uma profiss„o desagrad·vel, vejamos.

DifÌcil... Quero dizer, naturalmente... Mas mesmo assim... Estranho! N„o compreendo, confesso... Como È que pode tomar essa decis„o. Se È efectivamente verdade...

Como polÌcia experimentado, ele via bem, que efectivamente, era verdade: ela era fresca e correcta de mais para pertencer ‡s mulheres de certa profiss„o... N„o tinha nenhum dos sintomas de venabilidade que marcam infalivelmente o fÌsico e os gestos duma mulher, mesmo depois de uma curta pr·tica.

- Juro-lhe que È verdade! - Ela inclinou-se subitamente para ele, com confianÁa. - Eu ia exercer esta suja profiss„o, e ia pÙr-me a mentir? Ent„o porquÍ? … preciso levar as coisas simplesmente. Est· a ver, eu sou viuva. Perdi o meu marido: ele era piloto e desapareceu em Abril durante o degelo. Tenho dois filhos, um rapaz de nove anos, uma rapariga de sete.

N„o tenho rendimentos. Pais tambÈm n„o. Ele casou comigo Ûrf„. E os dele, os pais, est„o longe. E, ali·s, n„o gostavam de mim... Como s„o abastados, eu sou para eles uma espÈcie de mendiga. N„o tenho porta onde bater. Podia trabalhar, È certo. Preciso de muito dinheiro, e nunca ganharia o suficiente. O meu filho est· no liceu. Naturalmente, eu podia fazer uma tentativa para uma bolsa, mas onde È que isso me levava, a mim, uma pobre mulher? E o meu filho È um homenzinho... sabe, uma boa cabeÁa! Era pena cortar-lhe a carreira... O mesmo com a rapariga... TambÈm È preciso dar-lhe qualquer coisa. E um trabalho para isto, um trabalho honesto... encontra-se pouco. E quanto ganharia? E depois, pergunto-lhe eu, que trabalho? Cozinheira, talvez... sim, claro... cinco rublos por mÍs...

n„o chega! N„o chega para nada! Enquanto que com esta coisa... Com sorte... pode-se ganhar duma vez para comer durante um ano. Durante a feira, o ano passado, uma mulher que eu conheÁo ganhou quatrocentos rublos! Agora, com esse dinheiro, casou-se com um guarda florestal; È uma senhora, n„o precisa de se maÁar mais. Vive... Mas, h· a vergonha, dir· o senhor, claro, È desonroso... Mas È sÛ... E se pensar... … o destino... … sempre o destino. Isto veio-me assim, ao espÌrito; ent„o, n„o È verdade, È preciso fazÍ-lo: È um sinal do destino... Se der resultado, muito bem... se n„o der, e que eu tenha apenas o sofrimento e a vergonha... ser· tambÈm o destino... Sim...

Podchiblo ouvia-a e percebia metade, porque toda a sua fisionomia falava. A princÌpio, era uma express„o de terror, mas, depois, tinha-se tornado simples, seca e resoluta.

Ele sentia-se pouco ‡ vontade, com uma ponta de inquietaÁ„o.

Ćaia um idiota entre as m„os desta vaca e ela arrancar-lhe-· a pele num segundo e n„o lhe deixa sen„o os ossosª pensou e, quando a sua visitante acabou, disse secamente:

- N„o posso fazer nada por si. Dirija-se ao chefe da polÌcia. Isso È com a direcÁ„o da polÌcia e com a inspecÁ„o sanit·ria. Eu n„o posso nada...

Desejava vÍ-la partir o mais cedo possÌvel. Ela levantou-se imediatamente, inclinou-se e dirigiu-se lentamente para a porta. Podchiblo, com os dentes cerrados, piscando os olhos, seguia-a com os olhos, e calava-se para n„o lhe cuspir nas costas...

- Ent„o, eu devo ir ver o chefe da polÌcia, diz o senhor? - perguntou-lhe ainda, voltando-se na porta... Os seus olhos azuis diziam a sua decis„o inabal·vel. Mas uma ruga profunda vincava o seu rosto.

- Sim, sim! - respondeu precipitadamente Podchiblo.

- AtÈ ‡ vista! Muito obrigada! - E ela saiu.

Podchiblo encostou-se com os cotovelos sobre a mesa e ficou assim uma dezena de minutos, assobiando entre os dentes.

- Que estupor, hein? - Pronunciou em voz alta, sem levantar a cabeÁa. - Ainda por cima com os mi˙dos! O que È que os mi˙dos tinham a ver com isto? Hein! Que carcassa!

Fez-se, de novo, um enorme silÍncio...

- Mas h· a vida tambÈm..., se tudo aquilo È verdade. A vida torce um homem como uma corda, pode dizer-se... Sim... A vida n„o È nada macia...

Depois de novo silÍncio, para recapitular todo o trabalho do seu pensamento, ele deu um pesado suspiro, cuspiu com um ar definitivo e exclamou energicamente:

- Porcaria!

- Que deseja? - disse o sargento de serviÁo que reapareceu ‡ porta.

- Hein?

- O senhor comiss·rio deseja qualquer coisa?

- Pıe-te a mexer!

- ¿s suas ordens!

- EspÈcie de burro! - resmungou Podchiblo. E olhou pela janela.

Konkharine continuava a dormir no feno... Manifestamente, o sargento de serviÁo tinha-se esquecido de o acordar...

Mas Podchiblo tinha esquecido a sua cÛlera e o espect·culo do soldado que se refastelava sem cerimÛnia n„o o aborreceu de maneira nenhuma. Sentia-se obscuramente assustado. Via no espaÁo os olhos azuis, tranquilos, que o fitavam resolutamente, no rosto. Sob este olhar obstinado sentia um peso no coraÁ„o, uma espÈcie de mal-estar.

Olhou para o relÛgio, reajustou o cintur„o e saiu do gabinete, resmungando:

- Tornaremo-nos a ver, n„o h· d˙vida... … mesmo certo!

II

Efectivamente, tornaram a encontrar-se.

Uma noite em que rondava de serviÁo, Podchiblo viu-a a cinco passos de dist‚ncia. Dirigia-se para o jardim p˙blico com o lento andar coleante, os olhos azuis obstinadamente fitos em frente, ao longe; em toda a sua figura, harmoniosa e alta, no movimento do busto e das ancas, no olhar luminoso e grave, havia qualquer coisa que se desencontrava; o vinco de fatalidade extrema, de ren˙ncia, que lhe marcava a face, estava muito mais nÌtido que no primeiro encontro e estragava, endurecendo-o, aquele belo rosto.

Podchiblo cofiou o bigode, acariciou uma ideia travessa que acabava de nascer no seu espÌrito e decidiu n„o perder a mulher de vista.

- Espera um bocadinho, minha coruja! - Tal foi a exclamaÁ„o prometedora que lhe dirigiu mentalmente.

Cinco minutos mais tarde estava j· sentado ao lado dela num dos bancos do jardim.

- N„o se lembra de mim? - perguntou ele sorrindo.

Ela olhou para ele e mediu-o calmamente.

- Sim, lembro-me. Boa tarde, - disse ela em voz baixa, abafada, mas n„o lhe estendeu a m„o.

- Ent„o, como vai isso? Sempre conseguiu o livrete?

- Est· aqui! E comeÁou imediatamente a procurar na algibeira do vestido, sem abandonar o seu ar dÛcil.

O polÌcia ficou um bocado desconcertado.

- Mas n„o, n„o vale a pena, n„o o mostre que eu acredito. E mesmo, eu n„o tenho o direito... Quero dizer... Diga-me antes se se est· a sair bem? - perguntou ele. E pensou no mesmo instante. ´Preciso de sabÍ-lo! E de que maneira! E alÈm disso... vou-me pÙr com delicadezas? Ent„o, Podchiblo, vamos a isto!ª

No entanto, se bem que assim pensasse, n„o se decidia a entrar a fundo. Havia nela qualquer coisa que n„o permitia aproximar-se-lhe muito de perto, imediatamente.

- xito? L· vai, com a graÁa de... - ela parou bruscamente, abandonou a frase e corou fortemente.

- Est· muito bem. ParabÈns... … duro quando n„o se est· habituada? Hein?

De repente ela teve um movimento de recuo com todo o tronco, as faces empalideceram, a fisionomia endureceu, a boca arredondou-se como se fosse dar um grito e bruscamente inteirisou-se para se afastar dele e retomar a atitude precedente...

- Vai indo... Habituar-me-ei... - disse com um tom igual e claro, - e, depois, tirando o lenÁo, assoou-se ruidosamente.

Podchiblo sentiu o peito oprimido. Era tudo aquilo, o gesto, a proximidade e os olhos azuis, imÛveis e tranquilos.

Irritou-se contra si prÛprio, levantou-se e estendeu-lhe a m„o sem dizer nada, com um ar zangado.

- AtÈ ‡ vista! - disse ela docemente.

Ele respondeu com um gesto de cabeÁa e afastou-se rapidamente, chamando-se enraivecidamente idiota e crianÁa.

- Espera minha garota! Ter·s a paga! Vou fazer-te ver quem sou. Encarrego-me de te fazer passar esses ares de hipÛcrita! - ameaÁou-a mentalmente, sem saber porquÍ. E todavia apercebia-se de que nada tinha contra ela.

Mas isso ainda mais lhe aumentava a ira.

III

Dez dias mais tarde, Podchiblo, vindo da feira caminhava na direcÁ„o do cais da SibÈria; parou ouvindo gritos de mulher, trocas de insultos e outros ruÌdos duma bulha escandalosa que chegava ‡ rua pela janela dum cafÈ.

- Um agente! Socorro! - gritava uma voz ofegante. Ouviam-se pancadas medonhas com o barulho de ferragens, de mÛveis partidos e alguÈm, deliciado, mugia com voz de baixo que cobria toda a algazarra:

- D·-lhe! Ainda!... Em cheio na tromba! E pumba!

Podchiblo trepou as escadas a correr, abriu passagem aos empurrıes pela multid„o que se tinha comprimido ‡ porta da sala e o quadro seguinte apareceu-lhe ‡ vista: inclinada para a frente, sobre uma mesa, o seu velho conhecimento, a mulher dos olhos azuis, tinha agarrado pelos cabelos uma outra mulher, e puxava-a para si, batendo-lhe na cara repetidas vezes, naquela cara aterrorizada e j· inchada pelas pancadas.

Os olhos azuis, agora, estavam crispados pela crueldade, os l·bios cerrados, vincos profundos saÌam dos cantos da boca para o queixo, e aquele rosto que lhe era familiar, h·

pouco t„o estranhamente sereno, tinha agora a express„o de animal bravio cheio duma f˙ria implac·vel. Era a cara de um indivÌduo pronto a torturar indefinidamente o semelhante, a tortur·-lo por prazer.

A vÌtima n„o fazia sen„o gemer; agitava-se com espasmos e batia estupidamente no ar com os braÁos.

Podchiblo sentiu uma onda de f˙ria invadi-lo: o desejo selvagem de se vingar de qualquer coisa sobre alguÈm. Atirou-se e, agarrando a mulher que batia pela cintura, arrancou-a com um pux„o da vÌtima.

A mesa caiu num ruÌdo de louÁa partida; o p˙blico gritava selv·ticamente, morrendo a rir.

Podchiblo via, como nas tonturas da embriaguez, passar e repassar ‡ frente dos seus olhos um desfile de caraÁas vermelhas, bestiais; segurava a autora da rixa pela cintura e gritava-lhe raivosamente aos ouvidos.

- Ah! Esc‚ndalo? Desordem? Vais ver!

A que levara pancada caiu ao ch„o entre os fragmentos de loiÁa; estremecia com soluÁos entrecortados por guinchos histÈricos...

- Aquela, excelÍncia - disse ‡ outra: - ´Vai ent„o, prostituta, animal!ª. Ent„o a outra deu-lhe um murro. Vai ela atirou-lhe com a ch·vena de ch· ‡ cara, e ent„o, eu agarro-te os cabelos, eu bato-te, eu bato-te! E depois, sou eu que lhe digo, uma sova de criar bicho!

Que sarilho!

- Ah! ent„o È isso? - rosnou Podchiblo, apertando a mulher cada vez mais contra si, e comeÁando ele prÛprio a sentir ganas de se bater.

DebruÁado ‡ janela, bizarramente curvado, mostrando as costas largas, o pescoÁo arroxeado pela cÛlera, rugiu para a rua: - Cocheiro! Eh, cocheiro!

E um pouco mais tarde:

- Vamos, depressa... Para a esquadra! Toca a andar!... As duas! Vamos! De pÈ... E tu, onde estavas? E o teu serviÁo? Animal! Leva-as para a esquadra. ¿ bruta! As duas... V·!

O agente da polÌcia, forte e atarracado, empurrando ora uma, ora outra, com uma pancada nas costas, fÍ-las sair da sala.

- D·-me... uma aguardente com ·gua de Seltz, depressa! - disse Podchiblo ao criado, e deixou-se cair numa cadeira ao pÈ da janela, extenuado e furioso contra tudo e contra todos.

No dia seguinte de manh„ ela estava ‡ sua frente t„o resoluta e calma como no primeiro encontro; fitava-o a direito nos olhos com o seu olhar azul e esperava o momento em que ele comeÁasse a falar.

Podchiblo, que n„o tinha dormido o suficiente e se sentia exasperado, remexia os papÈis que estavam em cima da mesa e, mau grado o seu mau humor, n„o sabia como encetar o di·logo.

As apÛstrofes e inj˙rias habitualmente de rigor nestes casos n„o podiam sair-lhe da boca, e queria encontrar algo mais duro, mais violento que lhe atirasse ‡ cara.

- Como È que isso comeÁou, a vossa quest„o? Vamos, fala.

- Ela insultou-me... - pronunciou a mulher com um ar de dignidade.

- Que lindeza... Quem havia de dizer... - ironizou Podchiblo.

- Ela n„o tinha esse direito... Eu n„o sou como ela.

- Ai, minha avÛ! Ent„o o que È que tu Ès?

- Eu, ora... È a misÈria... sim... enquanto que ela...

- Ah! E ela, È por prazer, sem d˙vida?

- Ela?

- Sim, ela. Tu julgas que È por prazer?

- Mas porque È que ela o faria? Ela n„o tem filhos, ela...

- Ah, aÌ est· o que tu querias dizer... cala-te, reles estupor! N„o me venhas para c· com a histÛria dos filhos para me adoÁar a boca... Vai-te, mas toma cuidado, se eu tornar a apanhar-te: mudada em vinte e quatro horas! N„o penses em pÙr os pÈs no terreno da feira!

Percebeste? Bom! Eu conheÁo-as! Eu te direi! Esc‚ndalo! FaÁo-te ver o esc‚ndalo, eu, minha porcaria!

E, mais insultantes umas que outras, as palavras saÌam da boca do polÌcia para saltar ‡

cara da mulher. Ela empalideceu e os seus olhos franziram-se como na vÈspera, no cafÈ.

- Vai-te embora! - Trovejou Podchiblo, batendo brutalmente com o punho na mesa.

- Que Deus o julgue... - articulou ela secamente, em tom ameaÁador. E saiu rapidamente do gabinete.

- Eu dou-te os juizes! - berrou Podchiblo.

Tinha tido prazer em humilh·-la. Aquele rosto calmo e o olhar direito dos olhos azuis tinham-no posto fora de si. Para que È que ela se punha a fingir e com presunÁıes? Filhos?

ParvoÌces! Que descaramento! O que È que os mi˙dos tÍm a ver com isto? Uma debochada que se vai vender ‡ feira e que arma em inocente... Uma m·rtir, por forÁa... e os filhos! Onde quer ela chegar com isto? N„o tem coragem de se portar mal francamente, e ent„o vai chorar

‡s portas que È misÈria... Quem havia de dizer...

IV

No entanto, eles existiam: o rapaz, um pouco p·lido e tÌmido, na sua farda velha e usada de liceal, com um barrete negro mal feito, por cima das orelhas, e a rapariguinha, com um imperme·vel de xadrez demasiado grande para ela. L· estavam, os dois, nas pranchas do embarcadoiro de Kachine e tremiam de frio sob o vento do Outono, absorvidos pela sua conversa infantil e f·cil. A m„e estava de pÈ, atr·s deles, encostada a uma carga de mercadorias; e olhava-os carinhosamente com os seus olhos azuis. O rapaz parecia-se com ela; tambÈm tinha os olhos azuis; virava muitas vezes para a m„e a sua cabecita com um bonÈ, cuja pala estava partida, e falava-lhe sorrindo. A rapariga tinha a cara muito marcada de varÌola, o nariz era pontiagudo, os olhos grandes e cinzentos tinham um brilho vivo e inteligente. ¿ volta deles, nas pranchas, alinhavam-se caixotes e embrulhos.

Estava-se no fim de Setembro: a chuva caÌa desde manh„, o cais estava ensopado em lama viscosa e o vento soprava, h˙mido e frio.

Vagas revoltas corriam sobre o Volga e batiam ruidosamente na margem. Por toda a parte havia um rumor surdo, pesado, violento... Gente de toda a espÈcie agitava-se, inquieta, precipitando-se n„o se sabe para onde... E, ao fundo do cais animado duma vida palpitante, o grupo formado pelas duas crianÁas e a m„e, esperando calmamente, saltava imediatamente aos olhos.

Zossime Podchiblo tinha notado o grupo h· muito e, mantendo-se ‡ dist‚ncia, observava com uma atenÁ„o contida. Ele via todos os movimentos de cada um e envergonhava-se...

Vindo do cais da SibÈria, aproximava-se o vapor de Kachine; dentro de meia-hora partia para subir o Volga.

O p˙blico precipitava-se aos empurrıes no desembarcadoiro.

A mulher dos olhos azuis inclinou-se para os filhos, endireitou-se, muito carregada de pacotes e embrulhos, e desceu as escadas, atr·s dos dois filhos que iam de m„o dada, carregados igualmente.

Podchiblo tambÈm devia ir ao desembarcadoiro. N„o tinha vontade, mas era preciso, um pouco mais tarde, ela l· estava, n„o longe da bilheteira.

A mulher comprou um bilhete. Nas m„os tinha uma enorme carteira amarela, recheada de notas.

- Para mim, est· a ver - dizia ela - precisava... Para os pequenos, uma segunda classe, vamos para Kostrona, e, para mim uma terceira. Um sÛ bilhete para os dois mi˙dos, se for possÌvel?... N„o? Podia fazer-me um desconto? Muito obrigado! Deus lhe...

E ela afastou-se satisfeita. As crianÁas andavam ‡ volta dela e, puxando-a pelo vestido, perguntavam-lhe qualquer coisa... Ela ouvia-os e sorria...

- Ah, Senhor! claro, eu compro-lhes, prometi! Ent„o eu dizia que n„o? Cada um, dois?

Bom... fiquem aÌ!

E dirigiu-se para a esplanada onde se vendia toda a espÈcie de artigos e frutas.

Pouco depois estava novamente ao pÈ das crianÁas e dizia-lhes:

- Toma, para ti, Babetle, um sabonete... Cheira muito bem! Toma, cheira! E, para ti, Pierrot, uma faca. VÍs, eu lembro-me, n„o h· nada que eu esqueÁa! E aqui est„o dez laranjas. Comam-nas... Mas n„o agora...

O barco atracou ao pont„o. Um choque. Toda a gente oscilou. A mulher, com um olhar inquieto pÙs as m„os nos ombros dos filhos e apertou-os contra si. Os pequenos estavam calmos.

Tranquilizada por sua vez, comeÁou a rir, e as crianÁas riram com ela. Puseram a prancha no seu lugar e a gente atirou-se para o barco.

- Esperem! Nada de empurrıes, minha besta - ordenou Podchiblo, ‡ frente de quem desfilavam os passageiros, a um carpinteiro carregado de serras, machados e outras ferramentas. -

Desastrado! - Deixa passar a senhora e os filhos... Que bruto que Ès; meu pobre tiozinho!

completou ele com mais doÁura, logo que a senhora, aquela que ele conhecia e que tinha os olhos azuis, lhe sorriu e o saudou, passando ‡ frente dele para subir para o vapor...

...Terceiro apito.

- Larga! - Ordenou o capit„o do cimo da ponte.

O barco estremeceu e largou lentamente.

Podchiblo, passeando os olhos pelo povo concentrado na ponte e encontrando a mulher das pupilas azuis, tirou respeitosamente o bonÈ e inclinou-se para a cumprimentar.

Ela respondeu-lhe com uma profunda vÈnia ‡ russa e benzeu-se com fervor.

Ela partia para Kostrona com os filhos.

Podchiblo seguiu-a com o olhar durante alguns instantes, deu um profundo suspiro e saiu do desembarcadoiro para ir para o seu posto. Estava triste e abatido.

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