Artaud e o Seu Duplo por Ricardo Manuel Ferreira de Almeida - muestra HTML

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artaud e o seu duplo

ricardo ferreira de almeida

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Personagens

ANTONIN ARTAUD

DOUTOR FERDIERE

Tempo da acção

1943/1946 Pós II Guerra Mundial

A 11 de Fevereiro de 1943, Antonin Artaud é admitido no Hospital Psiquiátrico de Rodez, extremamente magro, sujo, desdentado e saído de uma sucessão errante de internamentos que durante seis anos o conduziram de Rouen a Sainte-Anne, em Paris. Os seus amigos surrealistas Robert Desnos e Paul Eluard, confiaram-no ao doutor Gaston Ferdière. Este psiquiatra, próximos dos surrealistas e director do Hospital Psiquiátrico, acolheu Artaud, ministrando-lhe uma série de choques eléctricos, prática conhecida por terapia electro-convulsiva. A peça Artaud e o seu duplo dá uma visão dos anos vividos por Antonin em Rodez, recuperando algumas das suas cartas e textos originais e estreou em Vila Real pela mão da A TROUXA MOUXA TEATRO, com Tiago Pires como Artaud e Gilmar Albuquerque como Ferdiere. A encenação foi de Marlene Castro.

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1.

ARTAUD

São quase quatro da manhã e não consigo dormir! Deve ser da mudança de hora… e desta chuva teimosa e incansável… ping ping ping… estou farto! Com esta idade sinto-me só, profundamente só, e aquela esperança que tinha aos dez anos de idade, esfumou-se. Não me lembro de me ter visto assim, sonâmbulo. Será que são lombrigas? Excesso de alguma coisa?

Ou a alma que se vai recompondo e formulando novos presságios: estarei careca aos 50

anos? (silêncio) O acaso das horas transmite tão facilmente as horas… e é a prova que a magia é real. Quando tinha dez anos de idade, tinha os olhos azuis e sabia o que era o azul.

Sabia o que havia nas mãos dos pobres e sentia cada vértebra estalar quando esticava o pescoço para perceber o número de pássaros pendurados nas mansardas. Tinha mais que um pescoço para olhar para trás e ficar aceso com os olhos em água. Dantes eu sabia que deitar as palavras ao chão era incriminar as tentativas de viver e só isso bastava para que os peixes apanhassem um nome que eu lhes punha. Jogava ao berlinde e sentia o sol a saber a cerejas.

Bronzeava-me com lençóis, chuva e malmequeres. Agora, estou despojado de tudo. De ninfas na cerveja, do onírico respirar da plateia. Um homem repleto de nada. Descoberto como um caracol à geada.

FERDIERE (entrando)

Bom dia! Como se sente hoje?

ARTAUD

Descoberto, como um caracol na geada.

FERDIERE

Tem frio?

ARTAUD

Sim, bastante.

FERDIERE

Podemos resolver isso de imediato. Quer que mande aumentar a temperatura do quarto?

ARTAUD

Não é necessário, obrigado.

FERDIERE

Talvez mais um cobertor?

ARTAUD

Não é necessário, obrigado.

FERDIERE

Mas não sente frio?

ARTAUD

Não é esse frio a que me refiro.

FERDIERE

É aquele ao qual eu me refiro?

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ARTAUD

Não. É um frio cultural.

FERDIERE

Sente-se desenraizado? Não podemos trazer para cá ninguém da sua família ou algum dos seus amigos. Vai ter de se habituar a viver assim, nestas condições.

ARTAUD

Não me refiro à minha família quando digo que sinto frio. Ela pouco pode fazer em relação a isso.

FERDIERE

Então, temo que não o tenha estado a perceber desde o início. Explique-se melhor, se puder.

ARTAUD

Sinto frio, e isso não passa apenas pelo mau estar físico. Prolonga-se ao resto do corpo, penetra as entranhas e atinge a alma. Se acaso ainda a tiver.

FERDIERE

É uma certeza ou apenas uma desconfiança?

ARTAUD

É uma forma que encontrei para mim próprio para explicar e aguentar este desterro forçado.

FERDIERE

Tem consciência daquilo que está a dizer?

ARTAUD

Sim, perfeitamente. Já perguntou a um prisioneiro se gosta de estar na sua cela? Pergunte-lhe e verá! Aposto que não… mas é uma suspeita, apenas e nada mais…

FERDIERE

Não tenha assim tanta certeza disso. Tem escrito?

ARTAUD

Pouco.

FERDIERE

O que é que tínhamos combinado? Esqueceu-se…

ARTAUD

Não preciso escrever, tenho tudo na cabeça.

FERDIERE

Pois, ainda bem. Mas não perca isso, escreva.

ARTAUD

Não perco. Só se me arrancarem a cabeça.

FERDIERE

Ainda à volta do teatro?

ARTAUD

Sim.

FERDIERE

O quê?

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ARTAUD

Pensei num manifesto.

FERDIERE

Costumam ser interessantes.

ARTAUD

Alguns.

FERDIERE

Diga-me, considera o seu manifesto interessante?

ARTAUD

Considero-o um protesto.

FERDIERE

Um protesto… Contra quem?

ARTAUD

Um protesto contra uma concepção de cultura distinta da vida, como se de um lado estivesse a cultura e do outro a vida. Como se a verdadeira cultura não fosse um meio sublimado de compreender e exercer a vida.

FERDIERE

Complementam-se uma à outra, quer dizer?

ARTAUD

Sim.

FERDIERE

Tem andado a pensar muito nisso?

ARTAUD

Sim.

FERDIERE

E em teatro, simultaneamente?

ARTAUD

O teatro é como a peste. É um delírio comunicativo. Não consigo fugir dele.

FERDIERE

Gosto muito de o ouvir falar sobre teatro, e concordo em parte com as suas concepções de popularização da cultura.

ARTAUD

Desculpe-me, mas está errado. Não falei em popularização da cultura mas sim na percepção que a cultura deve ser ela própria arte.

FERDIERE

Para muitos é impossível.

ARTAUD

Para muitos a impossibilidade é arte. Não ter o que se quer pode desembocar numa obra de arte. A ausência e a sua consciência podem ser arte.

FERIDERE

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A consciência da ausência poderá ser arte, mas quando se populariza a arte em demasia, não se corre do risco dela ser canibalizada pelo povo?

ARTAUD

O povo precisa de comer, tanto a arte como sopa. Se uma alimenta a outra educa. São dois géneros de alimento para a alma.

FERDIERE

Não está mal pensado. Quando sair daqui poderá, melhor que ninguém, aplicar na prática tudo aquilo que defende.

ARTAUD

Há alguma esperança em sair daqui?

FERDIERE

Isso apenas depende de si. O que quer fazer?

ARTAUD

Em relação à minha presença neste hospital?

FERDIERE

Sim.

ARTAUD

Quero sair.

FERDIERE

(rindo) Sente-se mal em Rodez, então?

ARTAUD

Eu sinto-me óptimo. Mas você é que não acha que me sinto assim e não assina os malditos papéis para que eu possa ir embora daqui. Eu sinto-me melhor, se quer saber.

FERDIERE

Pois claro…

ARTAUD

Pois claro… diz sempre isso… gostava que assumisse tudo o que me está a fazer!

FERDIERE

Seja mais concreto por favor.

ARTAUD

Seja mais concreto, seja mais concreto… sempre a mesma coisa… ser mais concreto…

FERDIERE

Custa-lhe ser mais concreto, só um bocadinho mais?

ARTAUD

Você é um dos responsáveis por isto tudo! Entrou na engrenagem da maquinação da minha suposta loucura. Eu não sou louco! Já o disse milhares de vezes a tantos outros como você que me confundiram com um louco. Eu não o sou! Eu não sou o louco que procuram!

FERDIERE

Sim, você não é louco… pode estar um pouco perturbado com tudo o que lhe aconteceu nestes últimos anos, mas tenho me esforçado por provar a sua sanidade. Veja só. Quando cá 8

chegou, a 11 de Fevereiro de 1943, pesava 55 quilos, estava desdentado, sujo e hirsuto. Veja como engordou e como está. Você vai melhorar!

ARTAUD

Como choques eléctricos? Diga-me como é que hei-de melhorar com choques eléctricos?

Repare na minha mão. Conseguia mexe-la de trás para a frente, girava-a sobre o pulso. Como esta. Está morta graças aos choques eléctricos dados por si!

FERDIERE

Você mostrava evidentes sintomas de delírio.

ARTAUD

Como chegou a essa conclusão?

FERDIERE

Analisando tudo aquilo que escrevia.

ARTAUD

Aquilo que você me incentivava a escrever!

FERDIERE

Sim. Eu incentivava-o a escrever. Mas de um pedaço da sua arte evoluiu para um campo de delírio que me cabia mitigar. Lembra-se disso?

ARTAUD

Não me consigo lembrar de nada. Fiquei apenas com este corpo, esta mão doente… a perder cabelo e a memória… mas continuo saudável… e você é o único que não quer ver que eu melhorei!

FERDIERE

Digamos que as últimas indicações são positivas… mas não quero com isto dizer que esteja completamente recuperado. Não está.

ARTAUD

Mas posso vir a estar e voltar ao princípio, recomeçar tudo de novo no teatro. O teatro é o lugar onde se refaz a vida, ouça bem isto. E depois eu irei dizer-lhe quem é que está louco!

FERDIERE

Gosto de o ver falar assim.

ARTAUD

Não seja cínico. Estou farto disso. Da sua hipocrisia, da forma como tolera aquilo que eu digo e penso. Está a roubar tudo para si!

FERDIERE

Não roubo nada para mim e muito menos estou a ser cínico. Gosto que escreva.

ARTAUD

Para depois encontrar em cada figura, em cada metáfora, em cada letra de cada palavra um pedaço da minha loucura? Não. Prefiro estar calado… Além disso, desconfio que você usa as minhas coisas em proveito próprio.

FERDIERE

Como é capaz de dizer uma coisa dessas? Eu sou o clínico responsável por si.

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ARTAUD

Você é um cínico irresponsável, que me quer ver morrer, que quer ver morrer o teatro que eu trago dentro de mim. Ouvi na rádio que numa tertúlia falavam do teatro e da peste…

FERDIERE

Uma coincidência… você falou nisso há pouco, não falou?

ARTAUD

Foi, por acaso falei… e por acaso, você estava ai quando eu falei nisso… só por acaso…

FERDIERE

Você não detém a exclusividade dos pensamentos à volta do teatro…

ARTAUD

Claro que não, mas é no mínimo estranho que estando eu aqui preso os meus pensamentos circulem lá fora!

FERDIERE

Agora vou reagir… está a ser incorrecto e isso não lhe admito!

ARTAUD

Não me mace com a correcção. Não tem moral para falar disso! Quero sair daqui, quero respirar o ar de Paris! Quero respirar o ar de Paris…

FERDIERE

Quando melhorar irá sem duvida respirar… inspirar e expirar… inspirar e expirar…

metodicamente… inspira, expira… acalme-se.

ARTAUD

Não posso acalmar-me! Eu quero ir embora! Eu quero passear nas ruas de Paris!

FERDIERE

Acalme-se! Enfermeira! Enfermeira!

2.

ARTAUD (escrevendo)

Tal como a peste, o teatro é um terrível apelo às forças que impelem o espírito, pelo exemplo, para a fonte originária dos conflitos. Se o teatro essencial se compara à peste não é por ser contagioso mas por, tal como a peste, ser a revelação, a apresentação, a exteriorização dum profundo intimo de crueldade latente, por meio da qual todas as potencialidade perversas do espírito, quer de um individuo, quer de um povo, são localizadas. Assim como a peste, o teatro é o tempo do mal, por excelência, o triunfo dos poderes obscuros que são alimentados por um poder ainda mais profundo, até à extinção. O teatro contemporâneo é um teatro decadente porque perdeu, por um lado, o sentido do sério e, por outro, o do riso: porque abdicou da sisudez e de efeitos que são imediatos e dolorosos, numa palavra, porque abdicou do perigo.

Porque perdeu o sentido do verdadeiro humor, o sentido do poder de desintegração física e anárquica que há no riso… Porque perdeu o sentido do verdadeiro humor, o sentido do poder de desintegração física e anárquica que há no riso… (riso descontrolado) FERDIERE

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Esteve a escrever?

ARTAUD

Sim.

FERDIERE

Pode mostrar-me?

ARTAUD

Não sei se deva.

FERDIERE

Por pudor literário ou existe outra razão?

ARTAUD

Por medo aos choques eléctricos.

FERDIERE

Oh… vá lá… não esteja receoso…

ARTAUD

Não vou mostrar…

FERDIERE

Está bem, não mostre. Mas previno-o que assim se torna mais difícil fazer um diagnóstico correcto da sua situação clínica.

ARTAUD

Não me interessa. Diga-me uma coisa: com que intenção retiraram todos os relógios daqui?

FERDIERE

Isso preocupa-o?

ARTAUD

Deixa-me intrigado… os vossos planos, para além de alienarem a noção de espaço, também passam pela ocultação do tempo?

FERDIERE

O tempo só preocupa ainda mais as cabeças em agonia. Não bastam os sedativos. Há que retirar os relógios e qualquer contacto com a sua marcha.

ARTAUD

A minha cabeça não está em agonia…

FERDIERE

Talvez sim, ou talvez não. Quem o pode saber?

ARTAUD

E este cheiro… é premeditado também?

FERDIERE

Temos de manter a máxima assepsia do local.

ARTAUD

Este cheiro… não saber as horas… não consigo escrever, se é que lhe interessa saber.

FERDIERE

Nem uma linha?

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ARTAUD

Nem isso.

FERDIERE

De certeza que escreveu uma linha, pelo menos uma. Não o acho capaz de desistir de uma linha. Uma simples linha, não escreveu?

ARTAUD

Não escrevi. Nada.

FERDIERE

E os seus sonhos? Tem sonhado?

ARTAUD

Não tenho sonhado.

FERDIERE

Não seja assim. Toda a gente sonha. Você deve ter tido os seus sonhos, por mais esquisitos que lhe possam parecer. Vá, deite tudo cá para fora, eu escuto.

ARTAUD

Não sonho.

FERDIERE

Quer falar de teatro então? Gosto de o ouvir falar de teatro. Se bem se lembra, fui eu que impulsionei essa sua faceta, que acho simultaneamente estranha e extremamente criativa.

Vamos falar de teatro, vá!

ARTAUD

Você não iria entender o meu ponto de vista. Tudo o que eu digo é doença, delírio… a minha suposta loucura…

FERDIERE

Não. Como me pode acusar de uma coisa dessas? Escute: eu estou aqui para o ajudar, só para o ajudar. Vá, fale, não tenha receio. Você que fala tanto na crueldade está a ser cruel agora, com todos esses joguinhos…

ARTAUD

Sem um elemento de crueldade como fundamento de todo o espectáculo, não é possível haver teatro.

FERDIERE

Não estamos propriamente numa sala de um teatro…

ARTAUD

Cale-se! No estado de degenerescência em que nos encontramos, é através da pele que se fará penetrar de novo a metafísica nos espíritos.

FERDIERE

Bravo! Conseguiu! Excelente frase. Pode repetir?

ARTAUD

Reagi a uma provocação sua, nada mais.

FERDIERE

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Reagiu mas com conteúdo! Respondeu muito bem! Agora vou reagir eu: parabéns!

ARTAUD

Está a brincar comigo?

FERDIERE

Não estou nada. Gostei dessa ideia de teatro, parabéns… embora me pareça um pouco incipiente a ideia…

ARTAUD

Um pouco, talvez…

FERDIERE

Mas folgo em saber que continua a escrever. Acertei?

ARTAUD

Se isso o deixa feliz, eu confirmo. Escrevo regularmente.

FERDIERE

Deixa-me feliz. E você, não é feliz?

ARTAUD

Porque pergunta isso?

FERDIERE

Não é feliz? A escrever?

ARTAUD

Isso não interessa agora. Além disso, o que lhe interessa a minha felicidade?

FERDIERE

Interessa e muito. Não é feliz?

ARTAUD

Pois se lhe interessa, não! Não sou feliz.

FERDIERE

O que lhe faz falta?

ARTAUD

A minha solidão neste quarto faz-me querer ser ainda mais que isso que você quer que eu seja. Encarar os outros é a primeira parte da minha terapia. Olhar as plantas, daqui de cima, completa a locução diária que a mim mesmo lembro. Sinto que estou a morrer. Dói-me o estômago e a cabeça e sei que são os primeiros sinais que a morte se aproxima. Já foram os primeiros sinais desta doença.

FERDIERE

Não diga asneiras! Você vai sair daqui, são e salvo. Quando estiver curado…

ARTAUD

Como se você me quisesse deixar sair daqui…

FERDIERE

Sai, um dia sai.

ARTAUD

E você? Como é sua vida lá fora?

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FERDIERE

Desculpe?

ARTAUD

Ouviu muito bem. Perguntei-lhe sobre a sua vida lá fora, longe deste hospital.

FERDIERE

Faz questão que eu lhe responda?

ARTAUD

Porque é que responde às minhas perguntas com outra pergunta? Concentre-se naquilo que digo e responda!

FERDIERE

Não se zangue. O que quer saber de mim?

ARTAUD

Comece pelo mais vulgar.

FERDIERE

O mais vulgar… tomo o pequeno-almoço as sete da manhã. Depois venho para aqui. Almoço as treze horas e lancho as dezassete. Janto, invariavelmente, as vinte horas. Tenho dois filhos.

O mais velho é recruta e a mais nova ainda estuda. Diz que quer seguir os passos do pai.

Outra psiquiatra na família!

ARTAUD

E a sua mulher? Não tem mulher?

FERDIERE

Interessa-lhe saber se tenho mulher?

ARTAUD

Interessa.

FERDIERE

Acha interessante para a nossa conversa saber se eu tenho mulher?

ARTAUD

Não acho nada interessante é responder com perguntas. Eu faço o mesmo, assim. Não quer falar sobre a sua mulher?

FERDIERE

Acha que eu estou a fugir à questão?

ARTAUD

Acha que eu não estou a dar conta que sim?

FERDIERE

Não tenho mulher.

ARTAUD

Não tem presentemente ou nunca teve?

FERDIERE

Nunca tive. Menti quando disse que era casado. Sou viúvo.

ARTAUD

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Viúvo? E os filhos? São de quem?

FERDIERE

O primeiro da minha primeira mulher. O segundo, da segunda.

ARTAUD

Nunca mais as viu desde então?

FERDIERE

Nunca mais as vi.

ARTAUD

Acabaram assim o relacionamento, sem mais nem menos?

FERDIERE

Mais complicado que isso.

ARTAUD

Complicado?

FERDIERE

Sim, bem mais.

ARTAUD

Como?

FERDIERE

Suicidaram-se, as duas.

ARTAUD

As duas? Uma de cada vez?

FERDIERE

Sim.

ARTAUD

Isso é que é ter sorte. Desculpe a ironia.

FERDIERE

Está desculpado pelo seu inocente cinismo.

ARTAUD

Mas deixe que lhe diga que não me admira nada o suicídio de ambas.

FERDIERE

Ai sim?

ARTAUD

Sim.

FERDIERE

Porque diz isso?

ARTAUD

Você é detestável. Nem sei como os seus filhos aguentam cheirar o mesmo ar que você respira.

FERDIERE

Está a dizer que cheiro mal?

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ARTAUD

Estou, cinicamente. E cinicamente olho para a sua figura e concluo que o doente, o psicótico, é você e não eu.

FERDIERE

Acha que “sou” ou que tenho alguma doença?

ARTAUD

Acho que você é um doente, mais ainda que eu. Nunca ninguém se suicidou por ter estado em contacto comigo. Consigo sim, duas pessoas.

FERDIERE

Espero que você não se suicide, então.

ARTAUD

Não lhe darei esse prazer, de arrastar o meu corpo frio por estes corredores desumanizados, como já vi muitos, os que estiveram fechados nas celas. Quando morrer, o meu corpo irá cheirar a rosas e a erva de Paris. Sabe a que cheira Paris?

FERDIERE

Diga me você.

ARTAUD

Paris cheira aquilo que nos quisermos que cheire, como qualquer cidade, vila ou rua. A verdade, a beleza está em nós. Somos nós que inventamos os cheiros, a arte, o teatro…

FERDIERE

Sempre a representar…

ARTAUD

Sempre a poesia…

FERDIERE

Não está em nenhum palco…

ARTAUD

Não é preciso estarmos em cima de um palco para haver teatro. Suprimimos o palco e a sala que são substituídos por um local único, sem barreiras. Há uma comunicação directa entre o espectador, você, e o espectáculo, eu e aquilo que digo e faço. Você está colocado no meio da acção, é envolvido por ela e afectado.

FERDIERE

Pois…

ARTAUD

Neste palco, você faz várias coisas, age…

FERDIERE

Naturalmente…

ARTAUD

Então, diga lá: porque razões se suicidaram as suas duas mulheres? Nojo? Partilha do mesmo espaço? Aposto que você nem sabe foder e elas, frustradas, suicidaram-se. Você não chegava para elas… nem para uma, nem para outra…

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FERDIERE

Cale-se.

ARTAUD

E além disso era pérfido.

FERDIERE

Não sou nem nunca fui pérfido.

ARTAUD

É isso, você matou-as com a sua perfídia… Estou a imaginar a cena: luzes foscas, música miserável de burguês, cortinados a condizerem com a cor das paredes da sala… você chega a casa e pergunta “O jantar está pronto?” e ela responde “Ainda não tive tempo.” Então você diz

“Quero jantar, estou estafado!” e ela responde “Estou no banho, espera!”. Então, tomado por uma raiva, a raiva que acumula há tantos anos por não conseguir compreender a vida, dirige-se à banheira, amordaça-a, prende-a e enche a banheira de água a ferver, obrigando-a a manter-se dentro dela com uma faca encostada à garganta! Quando ela sai da banheira, as queimaduras moldam-lhe o corpo e só lhe apetece morrer de ódio e vergonha! Então, a faca descuidada no lavatório serve para o suicídio, e você vê-a a cortar os pulsos dentro da banheira, enquanto a carne e o sangue cozem juntos naquela panela branca da desumanidade…

FERDIERE

Cale-se! Não fui assim cruel!

ARTAUD

Uma imagem de teatro obedece a todas as exigências da vida…você matou as suas mulheres!

Você é um demente lunático!

FERDIERE

Você está louco! Eu não as matei, elas suicidaram-se!

ARTAUD

Não, você é que é louco! Elas suicidaram-se porque não o aguentam por perto, a espreitar tudo o que se faz ou diz!

FERDIERE

Você é um filho da puta cruel!

ARTAUD

Sem um elemento de crueldade, não é possível haver teatro! É através da pele que se fará penetrar de novo a metafísica nos espíritos! Este hospital é o meu palco!

FERDIERE

Enfermeira! Enfermeira!

Blackout. Luz em Ferdiere. Artaud tombado no chão.

FERDIERE

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Artaud acusa-me de ser um bárbaro, e todos os cuidados médicos que teve neste hospital foram objecto de mil reclamações. Sofre de delírio parafrénico de tipo alucinatório, além de ter uma história de consumo de ópio, láudano e mescalina. Porra, ele almoçou em minha casa, na minha mesa! A minha mulher foi um anjo de paciência! Convidar uma pessoa como estas que não se sabe comportar à mesa, que arrota e se peida constantemente não é muito agradável.

Administrei muitos choques eléctricos na minha vida. Devo ser responsável por cerca de quatrocentos mil, directamente ou indirectamente, ordenados aos meus médicos subordinados ou nas clínicas onde dava consultas. Todos os psiquiatras o fazem, pois é preferível combater com choques eléctricos uma crise de melancolia que pode desembocar em suicídio. É

preferível fazê-lo a dar ansioliticos ou soporíferos, em doses muitas vezes perigosas.

3.

FERDIERE

Bom dia! Cá estou eu de novo! Não fala? Está muito calado hoje. Vá, vamos lá a falar. Já ontem esteve assim o dia todo, apesar de ter passado bem a noite. A enfermeira avisou-me disso assim que cheguei. Não sei o que se passa consigo. Julgo que as doses estão a ser administradas correctamente, não há nenhum erro na prescrição nem me parece que o diagnóstico tenha sido feito levianamente. Se prefere manter esse silêncio por teimosia, o problema é seu e apenas seu. Mas aviso-o que deve começar a tomar consciência dos seus actos. É para seu próprio bem. Não quer falar, está visto.

ARTAUD

Você está louco… e não eu… nem mesmo todos aqueles que passaram pelas suas mãos.

Você é o único doente neste hospital.

FERDIERE

Persiste em negar a sua patologia. Isso não leva a lado nenhum. Tem de admitir a sua doença.

É o primeiro passo para a cura.

ARTAUD

A partir de hoje não admito nada na sua presença. Tire as conclusões que tirar, mas eu não admito mais nada.

FERDIERE

É pior para si. Enquanto não der ordem, você não sai daqui.

ARTAUD

Você não me mete medo.

FERDIERE

Você também não me mete medo nenhum. E digo-lhe mais, baterei palmas quando o enterrar e estarei atrás de si a tocar a sineta. Estou farto da sua presença tosca no meu hospital!

ARTAUD

Não pense que me assusta com as suas ameaças, muito menos com as suas palmas. Não temo as suas ironias, já não me dizem nada… apesar de me terem atrasado a vida em três 18

anos! E nem a morte temo mais. Só ela me poderá libertar deste corpo queimado e prejudicado, única e somente por si. Quando morrer, voltarei a Paris!

FERDIERE

Farei com que não fuja nem regresse nunca mais a Paris.

ARTAUD

Não me pode impedir disso. Eu voltarei a Paris. Nas flores ou mesmo em cinzas. As flores de Paris terão a minha cara, obstinada e cinzelada pelas suas mãos carniceiras.

FERDIERE

Você está louco. Vou aumentar a dose de choques eléctricos.

ARTAUD

Não me interessam já os choques eléctricos, benditos sejam! Essa luz vai-me levar aos Campos Elísios, às ruas cheias de fantasia, impregnadas de poesia, de vida e de amor! As suas ruas estão cheias de fantasmas!

FERDIERE

Os meus fantasmas estão mortos e enterrados. A seguir irá você.

ARTAUD

Ouça o que lhe digo… você está com medo. Começa a medir as almas que puniu, em prol de uma suposta medicina e de uma cura desajustada!

FERDIERE

O meu dever é curar.

ARTAUD

Você não sabe o que é curar uma alma! Não sabe compreender as almas, não sabe de nada!

As leis, os costumes, concedem-lhe o direito de medir o espírito e essa jurisdição soberana e terrível, exerce-a segundo seus próprios padrões de entendimento.

FERDIERE

O meu dever é curar lunáticos como você!

ARTAUD

Não me faça rir. Para si um sonho meu ou as imagens que me perseguem não passam de uma salada de palavras! Foda-se! Os loucos são vítimas da ditadura social. E em nome da individualidade, reclamo a liberdade, quero-me libertar do estigma de amaldiçoado da sensibilidade, já que não está dentro das faculdades da lei condenar à prisão a todos que pensam e trabalham.

FERDIERE

Você piora de dia para dia, seu velho decrépito!

ARTAUD

Engana-se. Eu sou um atleta do coração. Velho, mas consciente desta realidade em que estou imerso. Recorde isto, quando conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais só tem a superioridade da força.

FERDIERE

Porque não se cala?

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ARTAUD

Não me posso calar ao vê-lo aí, armado em superior.

FERDIERE

Cale-se imediatamente!

ARTAUD

Era assim que falava com as suas mulheres?

FERDIERE

Cale-se!

ARTAUD

Estou a ver que sim. Ameaçava-as e elas, coitadas, caíam nas suas ameaças prepotentes. Se calhar ainda lhes dava alguns choques eléctricos!

FERDIERE

Cale-se, já disse!

ARTAUD

Não me calo! Eu sou o louco que a sociedade não quer ouvir!

FERDIERE

Cale-se!

ARTAUD

Loucos, sifilíticos, cancerosos, meningíticos, incompreendidos como eu. Há um ponto em todos nós que nenhum médico jamais entenderá: estamos além da vida, os nossos males são desconhecidos pelo homem comum, ultrapassamos o plano da normalidade e daí a severidade na punição dos homens!

FERDIERE

Calado!

ARTAUD

Não somos loucos, somos médicos maravilhosos, conhecemos a dosagem da alma, da sensibilidade, da medula, do pensamento! Deixem-nos em paz, deixem os doentes em paz, não pedimos nada aos homens, só queremos aliviar as nossas dores!

FERDIERE (bate-lhe. Artaud cai)

Ouça bem o que lhe vou dizer. A vida está aqui, no que vemos e mais nada! Não irá para Paris!

Estamos em guerra!

ARTAUD

Eu irei para Paris!

FERDIERE

Não irá parar ao antro da pior corja do mundo e de que você é exemplo perfeito! Actores pedintes, músicos, putas… merda como você é!

ARTAUD

A única merda que Paris tem é você, seu filho da puta!

FERDIERE (bate-lhe e Artaud quase desmaia)

20

Acorde. Então? Componha-se que está a chegar a enfermeira. Não quero que suspeitem de nada, de tudo aquilo que se passou aqui hoje. Nem daquilo que se passou durante este tempo todo… quantos anos? Já fez bem as contas? Quase quatro… você chegou quase na Primavera. Desde então, passaram-se três natais, três frios e sombrios natais. Que lhe diz o Natal? Pouco, pouquíssimo, já vi… então? Componha-se. Penteie-se. Tire esse fio de sangue dos lábios. E esse sorriso irónico. As enfermeiras não compreendem a sua ironia, já sabe?

Fazem-me todos os dias queixa de si… “o senhor Artaud é um mal-humorado que não se aguenta. Perguntamos se se sente bem, responde que não é da nossa conta. Perguntamos se quer um cobertor, diz que o frio que sente é mental… não se percebe!”

ARTAUD

Você não se cala?

FERDIERE

Vamos, componha-se. Vou chamar uma enfermeira. Quer alguma coisa para beber? Hoje pode beber um copo de whisky. Sabe que vai fazer três anos que está aqui? Três longos anos… e o teatro, adiado… para sempre…

ARTAUD

O teatro não se adia, seu esquizofrénico. O teatro estará sempre presente, até na condição mais iníqua, aquela a que me obrigou.

FERDIERE

Não me diga que essas merdas que você diz e escreve podem ser aproveitadas numa peça de teatro… que merda de peça de teatro que seria.

ARTAUD

Seria apenas se os actores não sentissem o que dizem. Como você, seu demente. Os dementes não sentem o que dizem quando desejam a morte a quem lhes dá os carros e as casas.

FERDIERE

Cale-se, imbecil! Componha-se, eu volto já! (vai buscar aparelho de choques eléctricos) ARTAUD

Nunca perdi um átomo de lucidez e nunca me escapou um gesto inconsciente nestes nove anos de internamento em Le Havre, Rouen ou Sainte-Anne. As únicas perdas de consciência tive-as nos últimos de dois meses, que advieram do coma dos choques eléctricos, aqui em Rodez. Passei nove anos em asilos de alienados e os métodos de cura ainda hoje me revoltam. Mas o pior método de todos é este, chama-se choque eléctrico, e consiste em ensopar um paciente numa descarga voltaica atroz. Ferdière impôs-mos várias vezes nestes três anos, o que me fez perder a memória do meu ser que se encontrava bem consciente…

FERDIERE

Ainda não perdeu essa mania, do teatro? (vai ligando o aparelho de choques eléctricos em volta de Artaud)

ARTAUD

O teatro é o lugar…

21

FERDIERE (interrompendo)

…onde se refaz a vida… já ouvi essa, milhares de vezes…

ARTAUD

Porco! Imita-me em tudo! Você é um imitador, é o inimigo da arte.

FERDIERE

Meu caro, pode ter a certeza que sou apenas um seu inimigo.

ARTAUD

Dói-me a cabeça…

FERDIERE

A dor física não é nada literária valha-o Deus…

ARTAUD

… e apetece-me morrer…

FERDIERE

Deixe-se disso. Uma guerra lá fora, você aqui dentro, a salvo da ocupação nazi e ainda pensa nisso? O suicídio não é a solução. (silêncio) Ou acha que é?

ARTAUD

Não, o suicídio ainda é uma hipótese. Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade. É preciso, por enquanto e até segunda ordem, duvidar atrozmente, não propriamente da existência, que está ao alcance de qualquer um, mas da agitação interior e da profunda sensibilidade das coisas, dos actos, da realidade. Tolero terrivelmente mal a vida. Não existe estado que eu possa atingir. E certamente já morri há muito tempo, já me suicidei. Suicidaram-me, quero dizer. Mas o que achariam de um suicídio anterior, de um suicídio que nos fizesse dar a volta, porém para o outro lado da existência, não para o lado da morte? Só este teria valor para mim. Não sinto apetite da morte, sinto apetite de não ser, de jamais ter caído neste torvelinho de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos que é o eu de Antonin Artaud, bem mais frágil que ele. O eu deste enfermo errante que de vez em quando vem oferecer a sua sombra sobre a qual ele já cuspiu faz muito tempo, este eu “clochard”, apoiado em muletas, que se arrasta; este eu virtual, impossível e que todavia se encontra na realidade. Ninguém como ele sentiu a fraqueza que é a fraqueza principal, essencial da humanidade. A de ser destruída, de não existir.

FERDIERE

Você é ridículo… mas já que quer literatura, veja bem o que eu escrevi. Muito engraçado, acho eu. Ai vai. Q uem sou? De onde venho? Eu sou … (silêncio) Ferdiere e basta dizê-lo como sei dizê-lo, imediatamente vereis o meu corpo actual voar em estilhaços e em dois mil aspectos notórios refazer um novo corpo onde nunca mais podereis esquecer-me. (Enorme choque eléctrico. Black-out)

ARTAUD (no escuro)

Fui eu que escrevi isso!

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